Relembrança de Willa Cather

Truman Capote

tradução Mauricio Tamboni



Truman Capote © Van Vechten, 1948 (Divulgação)

Truman Capote tinha apenas 18 anos e era um jovem jornalista tentando ganhar a vida em Nova York quando, numa tarde fria de inverno, conheceu Willa Cather, de quem era fã incondicional. Em 24 de agosto de 1984, um dia antes de sua morte, ele começou a registrar esse encontro. No entanto, o manuscrito inacabado, último trabalho de Capote, ficou perdido por anos e só veio à luz em 2006. Abaixo você confere a tradução, inédita em língua portuguesa, desse registro.





Todos os meus parentes são do sul — ou de Nova Orleans, ou da zona rural do Alabama. Pelo menos quarenta dos homens, e talvez até mais, morreram durante a Guerra Civil, inclusive meu bisavô.


Muito tempo atrás, quando eu tinha mais ou menos dez anos, comecei a me interessar por esses soldados mortos porque li uma coleção de cartas que eles enviaram do campo de batalha e que nossa família conseguiu guardar. Eu já me interessava pela escrita (aliás, tinha publicado pequenos ensaios e contos na revista Scholastic) e decidi escrever um livro histórico baseado nas cartas daqueles heróis Confederados.


Mas alguns problemas aconteceram e somente oito anos depois, quando eu era um jovem jornalista lutando para sobreviver em Nova York, foi que a questão dos meus parentes na Guerra Civil veio à tona outra vez. É claro que eu precisava pesquisar muita coisa e o lugar que escolhi para fazer essas pesquisas foi a New York Society Library.


Por vários motivos. Um deles era o fato de ser inverno e de aquele lugar em especial, tão quente e limpo e próximo da Park Avenue, oferecer um abrigo aconchegante o dia todo. Além do mais, talvez por causa da localização, os próprios funcionários e frequentadores eram um bálsamo: um monte de literatos bem-educados da alta sociedade. Alguns dos frequentadores que eu sempre via na biblioteca eram mais do que isso. Em especial a mulher dos olhos azuis.


Willa Cather © Van Vechten, 1936 (Divulgação)

Os olhos dela tinham o azul claro do amanhecer de um dia de céu limpo nas pradarias. Havia também um quê de robusto, de rústico em seu rosto, e não era só a falta de maquiagem. Tinha a estatura normal e o corpo sólido, embora não excessivamente sólido. As roupas eram uma combinação incomum de tecidos, mas de certa forma cativante. Usava sapatos de salto baixo e meias grossas e um belo colar de turquesas que combinava com o traje de lã. Os cabelos eram pretos e brancos e ressecados, um corte quase masculino. O elemento predominante e inusitado era o casaco de pele de zibelina que ela quase nunca tirava.


E que bom que ela o usava no dia da tempestade. Quando saí da biblioteca, por volta das quatro horas, parecia que o Polo Norte tinha se instalado em Nova York. Bolas de neve do tamanho de punhos esmurravam o ar.



A mulher dos olhos azuis e do valioso casaco de pele de zibelina esperava em pé no meio-fio. Tentava chamar um táxi. Decidi ajudá-la. Mas não tinha táxi nenhum à vista — na verdade, tinha pouco trânsito.


“Talvez todos os motoristas tenham ido para casa”, falei.


“Tudo bem. Não moro muito longe daqui.” A voz doce e profunda dela flutuou até mim através da neve pesada.


Então perguntei: “Posso acompanhá-la até sua casa?”


Ela sorriu. Caminhamos juntos pela Madison Avenue até um restaurante Longchamps. “Uma xícara de chá cairia bem. Você me acompanha?”, ela perguntou. Respondi que sim. Mas, assim que nos sentamos, pedi um Martini duplo. Ela riu e perguntou se eu tinha idade para beber.

Então contei tudo sobre mim. Minha idade. Que nasci em Nova Orleans e era um aspirante a escritor.


É mesmo? E quais escritores eu admirava? (Ela visivelmente não era nova-iorquina; tinha um sotaque do oeste.)


Gosto de Henry James. Mark Twain. Melville. E amo Willa Cather. [...] Já leu as duas novelas maravilhosas que ela escreveu, Uma Mulher Perdida e My Mortal Enemy?

“Flaubert. Turguêniev. Proust. Charles Dickens. E. M. Forster. Conan Doyle. Maupassant…”


Ela riu: “Bem, você sem dúvida é eclético. Mas… não tem nenhum escritor americano de que goste?”


“Como quem?”


Ela não hesitou: “Sarah Orne Jewett. Edith Wharton…”


“A senhora Jewett escreveu um livro bom: The Country of the Pointed Firs. E Edith Wharton escreveu um livro bom: The House of Mirth. Mas. Gosto de Henry James. Mark Twain. Melville. E amo Willa Cather. My Ántonia. Death Comes for the Archbishop. Você já leu as duas novelas maravilhosas que ela escreveu, Uma Mulher Perdida e My Mortal Enemy?


“Sim.” Ela tomou um gole de chá e baixou a xícara com um movimento ligeiramente tenso. Parecia haver alguma coisa revirando em sua mente. “Devo lhe dizer...” Ela fez uma pausa; depois, com uma voz apressada, mais ou menos sussurrou: “Eu escrevi esses livros.”


Fiquei aturdido. Como pude ser tão idiota? Eu tinha uma fotografia dela em meu quarto. É claro que era Willa Cather! Aqueles olhos celestiais perfeitos! Os cabelos curtos; o rosto quadrado, o queixo firme. Fiquei entre o riso e as lágrimas. Não havia pessoa viva que eu quisesse conhecer mais do que Willa Cather; ninguém teria me impressionado tanto — nem Garbo, nem Ghandi [sic], nem Einstein, nem Churchill, nem Stalin. Ninguém. Parece que ela notou isso, e ambos ficamos sem palavras. Engoli meu Martini duplo num gole.

Página do manuscrito de Truman Capote/Fac-símile @ Bonhams (Divulgação)

Mas logo estávamos outra vez na rua. Andamos com dificuldade na neve até um endereço caro e tradicional na Park Avenue. “Bem, é aqui que eu moro”, falou; e, de súbito, acrescentou: “Se estiver livre para jantar na quinta-feira, eu o espero às sete. E por favor, traga algum texto seu, eu gostaria de ler”.


Sim, fiquei extasiado. Comprei um terno novo e redatilografei três dos meus contos. Quando a quinta-feira chegou, às sete em ponto eu estava diante da porta de sua casa.


E ainda achava surpreendente pensar que Willa Cather usava casacos de pele de zibelina e morava em um apartamento na Park Avenue. (Sempre a imaginei morando numa rua silenciosa de Red Cloud, Nebraska.) O apartamento não tinha muitos cômodos, mas eram cômodos grandes, os quais ela dividia com sua companheira da vida toda, alguém do tamanho e da idade dela, uma mulher discretamente elegante chamada Edith Lewis.


A srta. Cather e a srta. Lewis eram tão parecidas que qualquer um teria certeza de que decoraram juntas o apartamento. Havia flores por todos os lados — ramalhetes de lilases, peônias e rosas cor de lavanda. Livros com belas lombadas forravam todas as paredes da sala de estar.




Os detalhes do jantar perderam-se, mas quase 20 anos antes, durante uma entrevista a Gloria Steinem, Capote exaltara Willa Cather como uma de suas “primeiras amigas intelectuais” e o romance Uma mulher perdida, livro de estreia do catálogo de 2019 da PONTOEDITA, como “uma obra de arte perfeita”.





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