Willa Cather no Capitólio

Atualizado: 4 de Jun de 2019


Artista plástico revela prévia da estátua de Willa Cather que representará o estado do Nebraska no Salão Nacional de Estátuas do Capitólio, em Washington, D.C.


Prévia da estátua de Willa Cather. A obra será feita em bronze e terá aproximadamente 2 metros.

Uma cerimônia realizada em 30 de maio no National Willa Cather Center, em Red Cloud, Nebraska, revelou uma prévia da estátua de Willa Cather que será alocada no Salão Nacional de Estátuas do Capitólio em 2020. Com a escolha, Willa Cather passa a ser a 11ª mulher a ter uma estátua no local.


A escultura da escritora e jornalista vencedora do Pulitzer e fenômeno de vendas nas décadas de 1920 e 1930 que representará o estado do Nebraska no Capitólio será feita de bronze e terá pouco mais de 2 metros de altura. A obra, do artista plástico Littleton Alston, também de Nebraska, tem inauguração prevista para maio de 2020 e substituirá a do editor e político J. Sterling Morton.


A troca é parte de uma ação importante possibilitada por uma lei federal de 2000 que passou a permitir essas substituições. A decisão, no entanto, permanece nas mãos das legislaturas estaduais e precisa ser sancionada pelo governador. Até agora, sete estados substituíram estátuas e, em todos os casos, o intuito foi ampliar a representatividade e a diversidade das personalidades e corrigir injustiças históricas.

O caso de Nebraska é icônico: o estado substituirá as duas estátuas que o representam no Salão do Capitólio desde 1937: além da estátua de Willa Cather que ocupará, como mencionado acima, o lugar que hoje é destinado ao editor e político J. Sterling Morton, o estado sancionou a substituição da estátua do advogado e político William Jennings Bryan pela do Chefe Standing Bear, da tribo Ponca.


Willa Cather em Jaffrey, New Hampshire, c. 1918. O artista plástico Littleton Alston buscou inspiração especialmente nas fotografias deste período para compor a estátua que será levada ao Salão do Capitólio em 2020.

Os dois casos são muito relevantes e dignos de celebração: de um lado, Willa Cather, mulher lésbica que fez de seus romances um repositório, ainda que pequeno, da história e da importância das tribos nativas na formação do povo americano; de outro, um nativo que lutou pelos direitos civis em uma época em que os povos originais não eram sequer considerados cidadãos (Standing Bear foi o primeiro nativo reconhecido como pessoa pela lei americana). Ainda mais digno de celebração é o fato de essas figuras emblemáticas substituírem a de um advogado e a de um editor (ambos homens, ambos brancos, ambos ricos — e ambos políticos!). Afinal de contas, os Estados Unidos, a despeito do que pensam Trump e os trumpistas, são, sim, um país multicultural.


Standing Bear, chefe da tribo Ponca que representará o estado do Nebraska no Salão Nacional de Estátuas do Capitólio ao lado da escritora Willa Cather

“Não se trata de diminuir a importância desses dois homens brancos, de modo algum — eles também fizeram coisas importantes para o estado de Nebraska. O que estamos tentando expressar é que somos mais do que dois políticos eleitos. Somos diversos e existem outras formas de representar o estado”, explica o Senador Burke Harr, responsável pela indicação do nome de Willa Cather.

Mas outras ações importantes têm sido realizadas localmente nos estados para substituir as estátuas dos líderes da Confederação e dos soldados confederados. A Flórida sancionou a troca da estátua do general confederado Edmund Kirby Smith por uma da educadora e ativista dos direitos civis Mary McLeod Bethune — ela será a segunda mulher negra a ter uma estátua de corpo inteiro no Salão do Capitólio (a primeira representada na coleção foi Sojourner Truth, que ganhou um busto em 2009).


A Califórnia, por exemplo, chegou a cogitar a troca da escultura do frade franciscano Junípero Serra (que ajudou na formação da Baja California instalando ali uma missão, mas também forçou os nativos americanos da região a se juntarem aos missionários e abandonarem sua própria cultura, religião, costumes e alimentação, levando inúmeros deles à morte — qualquer semelhança com a história do Brasil não é mera coincidência) por uma estátua da astronauta Sally Ride, primeira mulher americana a viajar para o espaço, em 1983. Todavia, a canonização do frade Serra pelo Papa Francisco em 2015 paralisou a votação na assembleia legislativa do estado e reforçou a posição do governor Jerry Brown que, apesar de pertencer ao Partido Democrata, é publicamente contra a substituição. Como podemos ver, há muito trabalho a ser feito nesse sentido.


As mudanças são, portanto, uma forma de reparação. Evidentemente o tema é complexo e não se trata de negar ou de reescrever a história, conforme aponta o Senador Harr (as esculturas substituídas não são destruídas, mas voltam a seus estados e são alocadas em outras instituições, como universidades, bibliotecas, igrejas ou praças). As personalidades que em algum momento fizeram parte da coleção do Capitólio tiveram e têm, é claro, um papel na história — só que talvez esse papel seja mais relevante na história local do que na história nacional. O fato que merece destaque, ao fim e ao cabo, é que essa série de ações diminui a sensação (ou a ideia) de que apenas homens brancos e privilegiados constróem a história de um país. As substituições não chegam a dar a voz aos escombros da história ou "interromper o cortejo triunfal dos vencedores", como Walter Benjamin talvez tenha sugerido, mas constituem uma ação positiva. É um bom começo.






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